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Das quitandas aos varejões, a saga japonesa em Taquaritinga PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
20 de junho de 2008

Cerca de ¾ dos varejões de Taquaritinga, município com 60 mil habitantes da região central do Estado, pertencem a famílias japonesas. Na década de 60, a cidade era a Capital do Tomate, um dos primeiros alimentos plantados pelos japoneses. O tomate começou a ser produzido depois da crise do café, já que os italianos usavam bastante o fruto em sua culinária. Além do tomate, frutas e hortaliças eram vendidas a pequenas quitandas instaladas na jovem e progressista cidade. Os japoneses, porém, vieram para trabalhar nos cafezais, dominados por italianos que, no início, abusavam dos imigrantes. Era um trabalho semi-escravo: péssimas condições e baixos salários. A promessa de dinheiro fácil e bons empregos era só promessa.

A família de Satoshi Yokoyama chegou ao Brasil em 1932. Logo comprou um sítio (que possui até hoje) na pacata Jurupema, distrito de Taquaritinga. A mãe de Satoshi, Dorotéia, estava com 5 anos. O pai, Milton, trabalhava numa fazenda em Ibirá e, alguns anos mais tarde, conheceu Dorotéia. Trocaram alianças em 1948.

Dorotéia começou a costurar “para fora” e Milton, junto com os tios, trabalhava duro na roça. Produziam, de pronto, para o próprio consumo. Depois, passaram a vender para pequenas quitandas. Foi com essa renda, aliás, que Satoshi e seus irmãos (Mayume e Milton) estudaram e concluíram o ensino superior.

Engenheiro agrônomo, Satoshi é hoje dono do Varejão da Matriz (que fica na pracinha da Santa Casa). Mantém a família no ramo das hortaliças, mas nem sempre foi assim. Ele vendia frutas para quitandas da cidade e região antes de se tornar comerciante. Satoshi (ao lado da esposa) administra o próspero estabelecimento.

O sítio em Jurupema, porém, não produz mais hortaliças. Satoshi, entretanto, não deixa de enfatizar a contribuição japonesa no plantio. “Os japoneses pesquisaram novas formas e importaram novas sementes”, faz questão de dizer.

O motivo do sucesso dos varejões, Satoshi tem na ponta da língua: tudo é fruto do próprio trabalho. O varejista credita ainda a força de vontade a uma filosofia de vida criada no Japão: a Seicho-no-ie – mas que ninguém se iluda, Satoshi é de família católica. A mãe, Dorotéia, que nasceu no Japão, tem muitas saudades da terra do sol nascente, inclusive conhecer pessoalmente os parentes. Mas Satoshi não arreda pé da pátria brasileira: “é apenas para passear, não temos vontade de voltar para o Japão”.

Watanabe está treinando Taiko com professora de São Carlos

Taquaritinga era a Capital do Tomate quando Yoshimasa Watanabe chegou na cidade com mais 3 irmãos em 1961. Ele estava com 9 anos e seus pais fugiam da crise no Japão depois das bombas de Hiroshima e Nagasaki na 2ª Guerra Mundial. Plantavam hortaliças e, já em 1964, compraram uma chácara. Fizeram pequenas hortas para consumo próprio e também vendiam às pequenas quitandas. Abriram uma granja – que no futuro se tornaria a Avícola Watanabe – que funcionou durante 15 anos, transformada então em varejão: 20% das hortaliças são de produção própria. A Família Watanabe possui atualmente dois supermercados em Taquaritinga (no centro da cidade e na Vila São Sebastião) e uma peixaria no mercado municipal, em Ribeirão Preto.

São 60 funcionários em toda a rede. Ao contrário de Satoshi, Yoshimasa tem vontade de ir ao Japão. Seu pai já foi visitar parentes, mas causou estranheza nos familiares e virou até manchete de jornal. Tudo porque chegou dizendo “boa tarde”. Mas ele tem dois motivos para voltar ao Japão: o primeiro, passear. O segundo, pesquisar novas formas de plantio. 

No seu sítio, Yoshimasa já usa algumas técnicas desenvolvidas por japoneses. Um exemplo? Seus canteiros de hortaliças forrados com plásticos. Outra idéia é importar sementes do Japão. “Elas são mais resistentes às pragas e aumentam a produção em menos tempo”, confessa o comerciante.

Yoshimasa é do tempo em que japonesa não podia namorar brasileiro e vice-versa. Muita coisa, no entanto, mudou desde quando ele chegou por aqui. Naquela época, por exemplo, o estudo não era tão importante, já que o trabalho era prioridade. As culturas hoje se integraram, mas Yoshimasa ainda preserva as tradições japonesas no âmago da família.

No começo deste ano, ele iniciou a técnica do Taiko com uma professora de São Carlos, e é incisivo: “Vou passar a cultura japonesa, que é tão rica, para as próximas gerações”. Yoshimasa, cujos familiares ainda residem no Japão, está emocionado com as comemorações dos 100 anos da imigração japonesa. “É uma festa linda para toda a população”.

A receita para uma vida saudável da família Ogasawara

Roberto Ogasawara é orador nato. Puxou aos avós, que chegaram ao Brasil (com os pais dele) em 1932 sem destino traçado. Pernoitaram no porto de Santos e, no dia seguinte, rumaram para o interior paulista. Trabalhariam nos cafezais da Fazenda Glória até 1942.

Foram 10 anos de muito esforço e a família comprou um sítio em Monte Alto. Roberto ali nasceu, mas esse local – onde plantavam cereais – foi palco de uma cena dantesca. A colheita na época era feita manualmente. Corria o mês de junho, época de seca. Os Ogasawara (pai e tio) tentaram colocar fogo num cacho de abelha. Perderam o controle e o fogo se alastrou por toda a plantação. Ambos também foram queimados.

O pai de Roberto permaneceu internado em estado grave durante 9 meses. Como ele era o pilar central da família, começaram a passar dificuldades. Venderam o sítio para pagar dívidas, mas não desanimaram – não queriam voltar ao Japão.

Tentaram a sorte em Barretos, que na época se chamava Colômbia. Arrendavam terras para cultivar arroz. Então vieram para Taquaritinga, em 1962, plantar tomate em grande escala. Forneciam para indústrias como a Peixe, a Cica e a Colombo, exportadoras no município. Ogasawara formou sua família. Um de seus filhos concluiu Direito e outros dois estão no Japão. É proprietário do Varejão Taquarão (na rua central da cidade) desde 1994.

A exemplo de Yoshimasa, Roberto também mantém os costumes japoneses, principalmente na alimentação. Ele acredita que a cultura japonesa pode servir de exemplo. “É uma sociedade que prioriza a honestidade e prega o respeito aos mais velhos, às crianças e ao meio-ambiente”, justifica. Honestidade, segundo o varejista, não é privilégio, é obrigação. A receita para uma vida saudável? Roberto Ogasawara não titubeia: “É só praticar esses conceitos que a pessoa estará no caminho certo”.


(Por: Tuca Sant'Anna e Eduardo Sotto Mayor)

 
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